quinta-feira, 13 de maio de 2010


Faz algum tempo que assisti uma comédia romântica, daquelas “água com açúcar”, em que uma menina passa por um momento ruim e deseja ser mais velha. De repente ela tinha seus 30 anos de idade.

Não me lembro de desejar chegar aos 40, mas eles chegaram e estou sentindo-me tão jovem (em vigor e ânimo), que brinquei com um amigo: “acho que estou completando 25 anos”. (Como os parâmetros mudam depois de uma certa idade!).

Talvez a “melhor idade” deveria ser nessa fase da vida, onde gozamos de boa saúde, nosso corpo ainda nos obedece, nossa mente é absolutamente ativa, somos independentes, enfim, todos os argumentos para dizer e sentir que podemos usufruir intensamente dessa nova fase. Ela sim, é a melhor idade.

O rosto mostra que alguma caminhada já percorri. Os fios de cabelos brancos comprovam que os problemas foram enfrentados com seriedade, o corpo maduro, ainda não passou do ponto e a experiência... ah, essa não tem preço. Não sabia aos 20 o quanto ela era valiosa. Pena que não podemos adquiri-la antes do tempo.

Mil idéias para comemorar a virada de década. Algumas não cabiam no bolso, outras não cabiam na agenda apertada, então sobrou a melhor das idéias, comemorar ao lado das pessoas que são importantes na minha vida.

Aos 40 anos, posso reconfirmar que o que temos de mais precioso, depois da nossa saúde, são as pessoas que escolhemos para estar ao nosso lado, trilhando os mesmos caminhos, rindo, chorando e sonhando. É ao lado dessas pessoas que quero comemorar (vou apenas sentir falta das que não moram aqui...).

Se fosse representar nosso ciclo de vida em um gráfico, penso que, os 40 anos seria aquele pontinho no ápice da representação. Agora é inevitável “descer a serra”, mas não uma descida triste, fúnebre ou decadente. Ela é alegre e divertida. Pode ser leve, se assim a permitirmos. Subimos tão rápido que a descida tem agora uma perspectiva diferente. Talvez seja nesse momento, que possamos contemplar a paisagem. Até aqui, a série de compromissos e almejos profissionais e pessoais, deixam sobrar pouco tempo para contemplação.

Para um corredor, a descida pode representar danos ao joelho (se não estiverem fortalecidos), mas é na descida também que um corredor pode soltar os braços para recuperar o fôlego da árdua subida que a precedeu. Então, vou soltar meus braços, segurar o corpo e proteger os joelhos para curtir deliciosamente esta descida que se inicia.

Quando nos damos conta de que uma contagem regressiva irá nos alcançar é que revemos conceitos e escolhas. Se não perdermos a vibração, a energia e a alegria de viver, essa tal contagem regressiva vai encontrar alguma dificuldade para nos alcançar.

Análise feita, compreensão concluída do que representa essa nova etapa, resta agradecimento por ter chegado até aqui, tão viva e tão cheia de sonhos e realizações. Pois, foi aos 40 anos, que descobri , que embora tenha vivido muito, sei que tenho a oportunidade de viver ainda mais.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Um alfabeto de planos


“Cada doido com sua mania” e como boa maluca que sou, tenho, entre várias manias, a de fazer planos. Claro que tento usufruir bem deles enquanto estou viva. Afinal, defunto não tem voz.
Faço planos e planos. Dos mais simples aos mais elaborados. E como todo ser que planeja, frustra também.


Quando percebi, trabalhava com várias alternativas, para os planos mais elaborados. A idéia era minimizar a frustração.


Para cada “Plano A”, existia um “Pano B” e quando me dei conta, já tinha pensado no “Plano C, D, E...” Fiquei preocupada comigo mesma.


Amo surpresas, sair da rotina e, de repente, estava afogada em um alfabeto de planos.


Assustador foi encontrar outros pseudo-estrategistas como eu. Outro dia, conversava com um corredor que tinha se programado para fazer uma prova de 10km em 48 minutos (até então seu tempo era de 50 minutos para este percurso). Seu primeiro plano era conseguir ultrapassar as pessoas na largada (tarefa árdua, quando se corre com cinco ou seis mil pessoas) e fazer o primeiro quilômetro em “x” minutos. Se não conseguisse cumprir essa meta, nessa primeiríssima etapa da prova, ele iria recuperar seu tempo, correndo o segundo quilômetro na velocidade “ y” e assim ele foi me contando todo o elaborado plano. Fiquei tão cansada que quase desisti de correr naquele dia. Porém, minha “ficha caiu”. Esse sujeito foi se divertir (corredores amadores, correm por prazer), completamente armado de planos.


Dei um basta. Nada extremo, afinal, quem tem uma natureza voltada à organização, não sobrevive sem ao menos um planinho A ou B. Mas me dei conta de que esse negócio vira uma prisão. Sufoca qualquer ser.


Senti dó dos meus filhos, meu marido que estão sempre esperando pelo que planejei para o dia. E eles ficam tranquilos, porque se o planejado não der certo, sabem que tenho sempre alguns planos escondidos debaixo da manga.


Nesses últimos dias, nessa nova experiência, estou conseguindo sobreviver muito bem sem meu alfabeto. A forma figurativa para descrever a sensação seria alguém me vendo passar pela rua com os pés flutuando sobre o asfalto.


Agora, se a viagem de férias é para algum lugar que ainda não conheço, escolho o hotel pela aparência e não pela sua localização estratégica (convenhamos, estratégica para quê?). Se houver transferência de cidade no trabalho, deixo para conhecer a nova moradia pessoalmente. Nada de me antecipar na net. Se o final de semana está sem compromissos sociais, fico de bobeira até que surja alguma boa idéia (isso inclui a idéia de não sair de casa). Se passear no zoológico ficou impossível em função da chuva, uma locadora de filmes pode ser uma opção de parada na volta para casa. E assim caminha uma humanidade sem planos.


Não faço aqui, nenhuma apologia ao “deixe o mundo acabar em barrancos para eu morrer encostada”. Todo extremo é prejudicial. Quem não planeja é porque não sonha e, para mim, quem não sonha, não vive.


Vamos encontrar o ponto de equilíbrio da balança. Nem tanto um alfabeto, nem tanto o analfabetismo. Apenas sem preciosismos. Curtição leve e feliz!

sábado, 1 de maio de 2010

Distância de Segurança


Quando meus filhos eram bem pequenos (embora para mim ainda sejam), eles costumavam se queixar das agressões sofridas pelos coleguinhas.

Apesar da grande vontade de dizer a eles: “quando te baterem, dê um empurrão nesse (a) garoto(a) para que ele (a) não te bata mais”. Nunca tive coragem de incentivar tal violência, até mesmo, porque o que sabemos é que “violência gera violência”.

Então ficava o duplo sentimento. Queria que eles se defendessem e ao mesmo tempo queria defendê-los (acho que isso é normal em todas as mães, espero!).

Lembrei-me da famosa “distância de segurança”, ou seja, ensinei a eles que, se um coleguinha tentasse bater, era para eles esticarem os bracinhos para frente e explicar que aquela era a distância de segurança, que, se o coleguinha ultrapassasse, a professora seria chamada.

Acho que funcionou bem, pois pararam de voltar mordidos para casa.
E nós, adultos? Quando é que percebemos a necessidade de “esticar os bracinhos e dizer: essa é a distância de segurança”? Do que precisamos tanto para nos proteger?

Protegemo-nos de muitas coisas. Algumas óbvias, outras nem tanto. Sofrimento, perdas, maldades do mundo, amores, injustiças, despedidas, mudanças e até mesmo da felicidade.
Caminhamos até certo ponto, mas da “linha amarela” para frente, tememos ultrapassar. Alguns mais corajosos, cerram os punhos e enfrentam a luta, mas a maioria de nós escolhe o caminho mais curto, que é o de evitar qualquer tipo de dor.
Ensinei isso aos meus filhos que, provavelmente, ensinarão aos seus filhos e assim sucessivamente.
Segurança... uma das palavrinhas que fazem parte do nosso cotidiano e das nossas necessidades básicas. Maslow a descreve muito bem. Mas talvez, nosso instinto de autopreservação possa nos tirar oportunidades de crescimento. Se tenho o hábito de esticar os braços impedindo que o novo se apresente, a grande probabilidade é que eu me feche em meu mundinho seguro e previsível.
Sabemos das nossas limitações, sabemos quando se faz necessário externar as “regras do jogo”, e assim viver um dia após outro, desejando que, em vários aspectos da vida, não seja mais preciso esticar os braços. E, pelo contrário, que possamos abri-los em forma de abraço para acolher nossas lutas, tornando-as mais leves, domáveis, porém sem permitir que cicatrizes sejam espalhadas em nossa existência.

terça-feira, 20 de abril de 2010

Tempo meu, tempo meu, quem te roubou de mim?


Felicidade é algo indiscutivelmente pessoal. O que é ser feliz para um, definitivamente não se traduz em felicidade para outros.

Temos, diariamente, inúmeras oportunidades de refletir sobre nossa felicidade (ou infelicidade), mas, embora "clichê", vale dizer que "a vida é feita de momentos" e a perspectiva pela qual avaliamos e vivemos cada um desses momentos é que gera um saldo final em nosso "livro caixa", que pode ser positivo ou de total falta de reservas.

Ter tempo para mim, é algo que faz-me sentir muito feliz, quando a perspectiva em questão é a minha liberdade. Há mais de um ano que faço parte de um grupo de pessoas que adora calçar tênis, colocar um short, uma camiseta e sair correndo pelas ruas.

Faço do esporte um momento de dedicação pessoal. Três vezes na semana, há na agenda um momento exclusivamente meu.

Se quero forçar, se quero fazer subidas, trotes, ouvir música ou não, são escolhas que faço pelo simples fato de ser, naquele momento, dona de mim. Minha única cobrança são os ponteiros do relógio, que correm mais que minhas pernas. Se não fossem eles...

As corridas já me levaram a vários lugares e como viajar é também uma outra perspectiva de felicidade (pelo menos para mim), correr fora do Brasil fez parte dos planejamentos de início de ano.

E, apesar de bem acompanhada por mais quatro amigas, embarquei com mala e cuia para outro país. Deixei para trás marido, filhos, trabalho e fui.

Posso garantir que, mesmo quando a saudade batia, eu me sentia feliz por estar comigo.

Essa sensação de liberdade é naturalmente engolida por nosso cotidiano e por nosso amor que também nos torna plenos e felizes ao lado das pessoas queridas.

Do embarque ao desembarque, fui deliciosamente "eu"! Amo ficar com quem amo, adoro meu novo trabalho, mas convenhamos, comer sem ter que servir (e o melhor, comer quente), tomar um banho sem correria, dormir sem ter que levantar para fechar janelas ou cobrir os pequenos é uma sensação de total falta de compromisso.

Podem chamar isso de egoísmo. Foi mesmo. Mas que santo remédio para renovação de forças. Tenho energia estocada por um bom tempo.

O retorno trouxe gratidão. Graças a vida cheia de saúde e de pessoas queridas é que se torna possível experimentar outras nuances da felicidade. Descobri que o grande "ladrão" do nosso tempo, são nossas escolhas e elas as maiores responsáveis pelos conceitos de felicidade que carregamos.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Fada existe?



No finalzinho das férias, levamos as crianças para assistir "O fada do dente".

O filme conta a história de um jogador de hóquei, de segunda divisão, "especializado" em destruir não só os dentes de seus adversários, como também o sonho de muitas crianças que o admiravam.

Mas as fadas o condenaram com uma dura pena: foi sentenciado a ser verdadeiramente um fada do dente por uma semana.
O filme transcorre com "o fada" esvaziando a dureza de seu coração e vivendo também as conquistas de seus próprios sonhos (que era voltar a ser um jogador de sucesso).

Voltamos para casa, com as crianças profundamente inclinadas a acreditar que a Fada do Dente existe.

Tratar os assuntos da fantasia por aqui, sempre foi pincelado com toque de racionalidade. Não de forma destrutiva, mas questionadora, para que as crianças tirassem suas próprias conclusões.

É muito engraçado quando eles têm dúvida sobre algum assunto dessa natureza. Parece uma balança. Um lado se inclina para a razão, mas o coração é totalmente voltado para a fantasia.

O saci, o papai noel, o coelhinho da páscoa e tantos outros que para eles não passam de personagens de livrinhos, esbarraram agora com a "verdade" de um filme. Ele balançou a cabeça e a emoção. Fada existe?

Na noite passada, um incisivo central abandonou uma boquinha feliz e não resisti a uma brincadeira. O dente que estava debaixo do travesseiro "desapareceu", e no lugar uma cédula enroladinha foi colocada.

Foi sensacional!

Na madrugada, o dono do dente "capturado" acordou convicto de que tinha sido visitado pela fada do dente.

Na manhã seguinte, fui questionada sobre quem realmente esteve no quarto (olha o racional brigando com a fantasia). Omiti, claro! E agora a dúvida paira no ar...

Incluir as crianças em nosso mundo real leva a um amadurecimento precoce. Tira a oportunidade de deixa-las "caminhar por ruas com pedrinhas de brilhante".

A escola vem atribuindo a estes pequenos, uma carga muito grande de responsabilidades. O mundo moderno, o futuro assustadoramente competitivo, nos pressiona contra parede, exigindo que façamos escolhas do que é "melhor" para eles.

Eu vinha esquecendo que eles são crianças e, na noite passada, resgatei a alegria de ve-los sonhar, numa mistura "amadurecidamente infantil", de acreditar nos "contos de fada".

quarta-feira, 24 de março de 2010

"Inutilidade" Humana


Falamos tanto sobre o quanto o ser humano é frágil, sobre o quanto somos impotentes, mas sempre baseados no racional, ou no que lemos ou ouvimos.

Enquanto gozamos de boa saúde, tudo isso fica numa esfera distante e inatingível, até que vem um insignificante mosquitinho, criado na casa de quem não deve cuidar nem do próprio umbigo, e te diz: vou te derrubar!

E o pestinha derruba mesmo.

Derruba seu corpo, sua mente e suas emoções. É a verdadeira sensação de "inutilidade" humana. Eu estava com dengue.

Engraçadas são as perguntas: "como você pegou isso"? ou "onde você pegou isso"?

Onde, quando e como já nem me interessavam mais. Para ser sincera, não consegui nem espiritualizar a coisa e pensar no "por que". Eu queria mesmo é que Deus permitisse que eu "sobrevivesse".

Eu tinha que "sobreviver" a uma casa de pernas para o ar, ao dever de casa feito "meia boca", ao almoço no restaurante sem a menor vontade de tirar o carro da garagem (o que dirá fome, que era nula ou inexistente). E-mails pipocavam na caixa de entrada do computador, com assuntos para serem resolvidos, mas ficaram lá... sem solução.

A dor que nasce na ponta dos dedos dos pés e prolonga até os fios de cabelo, já nem era motivo de pedido de sobrevivência.

O que não tem remédio, remediado está (adoro isso). Deixei tudo pra lá. Fui assistindo ao caos passivamente. Vivendo literalmente um dia após o outro. Uma dor após a outra.

E, como num passe de mágica, tudo desaparece. A cabeça volta a ter seu peso normal, o corpo começa a responder aos comandos da mente, o estômago abre a boca e grita com eco: "tô com fome!". E tudo começa a entrar nos eixos.

Os mosquitos continuam a circular , as pessoas continuam a não se importar com a própria segurança e com a segurança alheia (não estou generalizando), mas a vida segue seu caminho. Só me resta torcer para que esse surto passe logo.

Xiii! Já estão falando de H1N1. Será que irão só variar o nome dos nossos temores?

Ei-nos aqui, totalmente impotentes outra vez.

quarta-feira, 17 de março de 2010

Um comentário infeliz


Estava na sala de espera de um consultório médico, no dia em que se comemora o "Dia Internacional da Mulher", quando um respeitável representante de laboratório chegou para uma visita.
Como esperado, ele parabenizou as mulheres presentes. Até aí, tudo normal.
Confesso que não me ligo nessas datas. Respeito quem as curte, mas para mim é uma grande besteira. Sou mulher todo dia, sou mãe todo dia, sou amiga todo dia, mas isso é outro assunto...
O ilustríssimo representante começou a "elogiar" sua esposa: "ela é uma excelente mulher. Arruma a casa como ninguém, é impecável para lavar minhas roupas. A comida dela ninguém faz igual. Se um dia ela me deixar, sei que serei um homem perdido".
Respirei fundo, contei até mil e fui (ou ele foi) "salva(o) pelo gongo". Envolvi-me em minha consulta e por algum tempo esqueci aquele homem.
Quando cheguei em casa e fui compartilhar o ocorrido, minha indignação voltou.
Não sou contra ninguém que curte cuidar da casa e faz isso com esmero, mas ser "reconhecida" como uma "grande mulher" porque os serviços domésticos são de extrema qualidade, foi demais para mim.
Os atributos que ele vê na esposa são perfeitos para um anúncio de classificados de jornal: "Procura-se por uma doméstica que arrume bem, lave e passe com capricho, que seja exímia cozinheira, com direito a dormir com o patrão".
Elogios para uma esposa dedicada poderiam ser vários: carinhosa, cuidadosa, companheira, amiga, enfim, não faltam atributos para uma mulher que tem um serviço diário exaustivo dedicado à família.
Francamente, espero que essa mulher seja muito feliz com o marido que tem, porque se não for, que ela dê um pontapé bem forte no traseiro desse homem que teve a audácia de "elogiar" o fato dela ter tirado o lodinho do banheiro no domingo, enquanto ele estava jogando futebol.
Um verdadeiro comentário infeliz!